Dá Gosto Ver Árvores Mais Altas do Que Nós

Do nosso amigo, António Monteiro, da Associação Transumância e Natureza (ATN), recebemos o seguinte texto:

Dá gosto ver as crianças crescer, sejam pessoas ou sejam plantas!

Especialmente quando há meia dúzia de anos, estas plantas eram apenas pequenas e incógnitas sementes de Fraxinus, ripadas às “mãozadas” dos ramos das suas mães (ou pais).

Dentro de sacas e baldes foram para o viveiro (maternidade de árvores como lhes chamam os britânicos), para serem espalhados em grandes alfobres de boa terra escura e húmida. Na Primavera seguinte germinaram, e quando tinham apenas duas folhinhas ligadas, foram separadas umas das outras e metidas em cuvetes individuais. Esperaram mais de meia-dúzia de meses, sobrevivendo ao estio seco, poeiroso mas coalhado da Sabóia, sob a protecção da malha-sol e sorvendo as regas que foi possível fazer. Até que numa fresca, e fria manhã de Outono, as mãos de algum voluntário (provavelmente pertencente ao Colectivo Germinal) as tratou de sacar da cuvete e carinhosamente lhes depositou o raizame nalgum recanto ignoto e remoto da Faia Brava.

A partir daí foi a verdadeira aventura das plântulas, entregues à sua sorte, esperando arduamente umas gotas de chuva em Agosto, evitando a pisadela do garrano e a fuçadela do javali, engrossando, engrossando lentamente, deitando corpo, caule, ramos, raízes e fazendo crescer a pequena sombra da folhagem no seu pedaço de terra.

Um dia destes se tudo assim se mantiver, e se por exemplo os incêndios de Verão continuarem a evitar estes rochedos do Côa, a planta até vai criar uma casca rude e rija como os cornos da ovelha terrincha, que não lhe deixará entrar na seiva, nem besouro nem fungo nem fogo frio, mas que servirá para que algum gato lhe trepe acima e do alto da ramada contemple o seu feudo. Mas ainda melhor vai ser quando esta planta passar a dar sementes, profusos cachos verdes e amarelos de milhares de sâmaras, que vão abanar ao vento como que acenando a alguém que ali passe para lhos ripar ou simplesmente atirar ao vento Suão, e assim perpetuar o ciclo.

Assim queremos acreditar os que estamos apaixonados por esta Faia Brava… Ou antes por esta Terra.

Que cresçam as arvorezinhas!

2 Responses to “Dá Gosto Ver Árvores Mais Altas do Que Nós”

  1. Aida

    Crescer com as árvores é das experiências mais enriquecedoras que podemos ter e dar aos nossos filhos. Lembro-me perfeitamente que quando compramos o nosso terreno, há já dez anos, nada tinha a não ser cascalho de xisto. Apaixonamo-nos pela localização, pela vista, mas a nossa dor é que não tinha uma única árvore, nem sequer um arbusto. Chegamos a pensar na possibilidade de comprar árvores já bem adultas. Como poderíamos ficar à espera que elas crescessem? Como poderíamos adiar o prazer da sua beleza e da sua sombra acolhedora, e de toda a vida que acolhem? O terreno demasiado agreste punha em risco a sobrevivência de árvores habituadas a outras condições. Fomos a um horto da zona e compramos algumas pequeninas árvores de fruto que pudessem sobreviver ali. Demos-lhes alguma vantagem em buracos previamente feitos por uma máquina (era impossível escavar a pedra à picareta). O revolver do terreno para abrir acessos deu a possibilidade a que depois bolotas que já lá estivessem, sementes de pinheiro bravo e de arbustivas locais criassem raízes e crescessem. Inicialmente foi difícil, o terreno demasiado exposto à neve do Inverno e ao calor tórrido do Verão determinou quais seriam os legítimos sobreviventes. Nós pouco podíamos fazer para além de observar e aprender. Hoje, temos árvores(algumas que nos dão o seu fruto e todas a sua beleza e sombra) umas mais resistentes do que outras. Aprendemos com as árvores a planear para os anos seguintes (não para já), que tudo leva o seu tempo e a paciência é um fruto que tem que se deixar amadurecer bem para colher. Ver o tronco frágil de uma árvore crescer, engrossar e ganhar essas marcas que não são mais que o testemunho de uma sobrevivência a custo mas determinada. Hoje, temos orgulho no ecossistema que construímos em tão pouco tempo: cada ano observamos mais espécies que procuram o nosso pequeno terreno para se alimentarem e refugiarem (insectos. aves, répteis, pequenos mamíferos) e a riqueza dessa experiência não tem igual.

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