Mitos Urbanos

Ninguém sabe como começa um mito urbano, tal como um boato. Num caso, como no outro, não é fácil determinar onde e como começaram, sabe-se apenas que se vão espalhando, como um vírus, de boca em boca, ganhando contornos de verdade, de tantas vezes repetidos.

Os boatos são, a priori, mais nefastos, pois tendem a centrar-se na vida íntima das pessoas, procurando, através da difamação, achincalhar e humilhar. Aparentemente mais inócuos, os mitos urbanos, muitas vezes difundidos como evidências científicas inquestionáveis, não são, por isso, menos perigosos.

O assunto é sério, pelas consequências que, ainda que involuntariamente, pode acarretar. Recentemente foi até publicado um livro, em Portugal, sobre este assunto e, no canal Discovery, existe inclusive um programa denominado Caçadores de Mitos.

No entanto, quer no caso do livro, quer no caso do programa de televisão, duvido que existam referências a mitos relacionados com árvores. Mas eles existem, pelo menos em Portugal, e são a base para uma perigosa paranóia persecutória, que me atrevo a baptizar de “choupofobia”.

A “choupofobia”, ou seja, a aversão generalizada aos choupos plantados nas nossas cidades, deriva da convicção que estes são uma das principais espécies causadoras de alergias em meio urbano. Esta ideia tem sido usada como justificação para o abate de dezenas de árvores deste género, por todo o país e mesmo na vizinha Espanha (ler este artigo sobre o abate de 450 choupos, em Vigo).

Por cá, nos últimos dias, tivemos conhecimento do abate de choupos em Matosinhos, através do texto Por Um Punhado de Pólen, publicado neste blogue, pelo José Rui Fernandes. No caso das imagens que acompanham este texto, o abate de choupos ocorreu na Póvoa de Varzim, onde a solícita autarquia local não se fez rogada face ao pedido de alguns moradores.

O leitor Nuno Oliveira, que nos alertou para este caso, teve a oportunidade de questionar um dos técnicos camarários presentes no local, que confirmou que todas as árvores abatidas, sem excepção, estavam saudáveis. O mesmo técnico camarário, sem citar qualquer estudo ou artigo, em jeito de justificação, atirou com aquele tipo de frase com que se pretende dar por encerrada uma discussão:

Os médicos já sabem todos que esta árvore faz mal às alergias!

É com este tipo de argumentos, escassos em pormenores técnicos mas aludindo a uma autoridade pretensamente inquestionável (“os médicos já sabem todos”…), que se pretende reforçar a veracidade do mito, convencendo os mais cépticos.

Correndo o risco de me tornar repetitivo, face ao citado texto do José Rui Fernandes, vou tentar desmontar alguma da argumentação que sustenta esta “choupofobia”.

Os choupos (género Populus) são árvores com espécimes masculinos e femininos. São os espécimes masculinos que libertam o pólen, no início da Primavera. Nos dados que consegui apurar, não encontrei estudos que pudessem sustentar a teoria de que o pólen de choupos tem um potencial alérgico elevado. Pelo contrário, os dados disponíveis apontam em sentido contrário:

– Na página da rede francesa de aerobiologia, Réseau National de Surveillance Aérobiologique (RNSA), o pólen dos choupos é classificado com um potencial alérgico de dois, numa escala de zero a cinco. Dos 17 géneros de árvores referidos, 11 têm uma alergenicidade igual ou superior a três, ou seja, os choupos estão entre o grupo de árvores cujo pólen tem menos potencial para criar alergias.
– Na página da Associazione Italiana di Aerobiologia (AIA) é referido não serem conhecidos estudos específicos que comprovem a alergenicidade do pólen de choupo-branco (Populus alba L.), embora se acrescente que o pólen desta espécie não aparenta ser uma causa comum de alergias, pese embora as enormes quantidades de pólen que esta espécie liberta. Em consonância com esta observação, estão os resultados de um estudo1 comparativo feito em Ancara, na Turquia, entre o pólen de choupo-branco e o de gramíneas, e no qual se concluiu ser o pólen destas o principal causador de reacções alérgicas.
– Na página da Red Española de Aerobiología (REA) é referido, citando a obra Polen Atmosférico en Europa, de Spieksman et al., que a relação do pólen de choupo com reacções alérgicas é muito limitada.
– Por último, na página da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), não existem referências a uma possível alergenicidade do pólen de choupo. Existe informação sobre os salgueiros, espécie que pertence à mesma família dos choupos (Salicaceae), e cujo pólen é considerado como tendo uma alergenicidade baixa.

A ausência de estudos que indiciem o pólen de choupos como importante causador de alergias é um dado seguro para não temer os grãos libertados por estas árvores. Aliás, a fobia das pessoas aos choupos não surge em Março e Abril, quando os exemplares masculinos libertam o pólen mas, em Maio, quando os exemplares femininos libertam as sementes agarradas a substâncias filamentosas, vulgarmente designadas por “algodão dos choupos”.

Um dos primeiros pontos a desmistificar é precisamente este, ou seja, estas substâncias filamentosas e sedosas, libertadas pelos espécimes femininos dos choupos, nada têm a ver com os grãos de pólen libertados pelos espécimes masculinos, algumas semanas antes.

No entanto, muitas pessoas acreditam, ao verem esta substância a esvoaçar, que os choupos estão a libertar o seu pólen. Esta é uma constatação que se retira não apenas das conversas que ouvimos no dia-a-dia, mas também, por exemplo, através das pesquisas feitas na Internet. Este mês, por exemplo, e ao contrário do que sucedeu nos dois meses anteriores, várias pessoas acederam ao nosso blogue, ao citado texto do José Rui Fernandes, através de pesquisas como “pólen dos choupos” ou através de outras frases similares.

É este algodão, chamemos-lhe assim, e não os grãos de pólen, o principal instigador do ódio aos choupos, pela convicção generalizada que esta substância é uma das principais causadoras de alergias, em meio urbano. Uma vez mais, e como no caso do pólen, não há fundamentação científica para esta crença popular, antes pelo contrário.

É certo que esta substância pode, em grandes quantidades, provocar irritação se entrar em contacto directo com os olhos ou com as mucosas nasais, por exemplo. Trata-se de uma acção irritativa por contacto, ou seja, por acção mecânica, e não por inalação e consequente reacção do nosso sistema imunitário, tal como acontece com os grãos de pólen.

A este propósito, é particularmente esclarecedor o que pode ser lido na página do European Pollen Information:

Algumas pessoas acreditam, de forma errónea, que ele (o “algodão dos choupos”) causa os sintomas da febre dos fenos. Na realidade, as sementes dos choupos e o primeiro (e invisível) pólen das gramíneas a ser libertado no ano, costumam coincidir no tempo…

O problema relacionado com a libertação das sementes dos choupos é precisamente o referido na citação anterior, ou seja, coincide no tempo com a libertação de milhões e milhões de grãos de pólen de outras espécies, nomeadamente o das gramíneas, com elevada alergenicidade. A este propósito, a alergologista Maria da Graça Castel-Branco, em declarações ao Jornal de Notícias, reconhece:

Entre Março e Maio (…) é o período em que maiores quantidades dessas substâncias (dos choupos) estão no ar, salientando, porém, que é o pólen das gramíneas (ervas selvagens), mais agressivo, o responsável pela maior parte das alergias em Portugal.

Particularmente significativa é ainda a informação que consta de um esclarecimento da Provedoria do Ambiente e da Qualidade de Vida Urbana de Coimbra, do qual constam os pareceres do Professor Jorge Paiva e da Dr.ª Ana Todo Bom, especialistas académicos em flora e alergologia. Da muita informação que consta deste documento, retive particularmente a seguinte citação do Dr. Antero Palma Carlos, iminente especialista nacional em alergologia:

As alergias primaveris são uma reacção do organismo aos pólenes dos fenos (gramíneas), de algumas urtigas e das oliveiras e não às flores e/ou sementes do choupo e plátanos que enchem o ar de flocos de algodão.

Deste modo, sendo certo que o “algodão dos choupos” pode provocar irritações de índole mecânica, não existe fundamentação que valide a ideia, largamente difundida, que esta substância provoca alergias. Infelizmente, apesar de inúmeros esclarecimentos, muitas autarquias vão continuar a abater os choupos, caucionando um ódio popular baseado na ignorância ou, se preferirem, em mitos urbanos. O que as autarquias não podem fazer é valer-se da ciência para tentar justificar esta espécie de caça às bruxas.

É incontestável que o pólen de certas espécies pode provocar reacções alérgicas, que originam diversos tipos de desconforto a milhões de pessoas. No entanto, ao contrário do que a indústria farmacêutica nos pretende convencer, nomeadamente através de um recente anúncio televisivo, as plantas não estão em guerra com o ser humano.

Nas cidades, a falta de qualidade do ar é um efeito causador de problemas respiratórios, incluindo sintomas associados à asma e a reacções alérgicas. Esses efeitos podem, inclusivamente, surgir logo nos primeiros anos de idade2. (Consultar, adicionalmente, os artigos citados no texto Por Um Punhado de Pólen, publicado neste blogue, por José Rui Fernandes).

Estes estudos, mais não fazem do que fundamentar, com bases científicas, uma explicação para aquilo que se sabe há muito, ou seja, que as alergias são um problema sobretudo dos países industrializados, onde uma acentuada percentagem de população reside em meio urbano.

Se assim não fosse, ou seja, se o cerne do problema estivesse nas plantas e no pólen por elas libertado, há muito que as populações rurais, sujeitas ao pólen de mais plantas do que as populações urbanas, teriam procurado refúgio nas cidades. O êxodo rural é real, bem sei, mas deve-se a tudo menos a questões de saúde pública!

Se persistíssemos nesta ideia incoerente de que o pólen das plantas, e o das árvores em especial, é o verdadeiro problema por detrás do crescente número de pessoas que sofre de alergias desde tenra idade, então o corolário natural de tal ilógica convicção, seria que numa cidade, quantas mais árvores se abatessem, mais saudáveis seriam os seus habitantes. Absurdo, não é?!

Bem pelo contrário, as árvores são o nosso melhor aliado, nas cidades, contra a poluição. Nos Estados Unidos, por exemplo, estima-se que as árvores em meio urbano sejam as responsáveis por retirar da atmosfera, anualmente, o equivalente a cerca de 711 mil toneladas de substâncias poluentes3.

Assim sendo, cortar árvores, como os choupos, mais não fará do que agravar a qualidade do ar que respiramos nas cidades, potenciando o surgimento de reacções alérgicas e de outras graves doenças, em particular do foro respiratório.

Os meus alunos de Ciências de 5º ano conhecem bem os efeitos benéficos das árvores. Sinceramente, não me interessa se os adultos sabem mais, ou menos, do que uma criança de dez anos, mas gostava que compreendessem que abater árvores, nas cidades, como forma de prevenir alergias, é tão absurdo como aumentar o consumo de sal como forma de prevenir acidentes vasculares cerebrais.

1Poplar pollen-related allergy in Ankara, Turkey: how important for patients living in a city with high pollen load?[National Center for Biotechnology Information (PubMed.gov)]
2Air Pollution from Traffic and the Development of Respiratory Infections and Asthmatic and Allergic Symptoms in Children (American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine).
3Air pollution removal by urban trees and shrubs in the United States (ScienceDirect)

(Fotografias de Nuno Oliveira.)

8 Responses to “Mitos Urbanos”

  1. Vera Silva

    Este texto devia ser enviado a todas as câmaras municipais. Embora não acredite que deixassem de abater árvores por causa disso, não poderiam alegar as tais “razões científicas e médicas ” de conhecimento geral…
    Já fui aos locais de Matosinhos onde cortaram os 80 e tal choupos… a paisagem mudou…e para pior. Uma tristeza….

    Responder
  2. António Nunes

    Infelizmente parece que as Câmaras Municipais (por exº a de Leiria) pensam que na dúvida, abate-se uma árvore e o problema fica resolvido.

    Mais um choupo (populus nigra) de grande porte, com muitos anos, mas não caquético e carcomido pelo tempo ou pela doença, foi abatido junto ao Tribunal de Leiria. Porquê?
    Ninguém diz nada. Segredo de Justiça, se calhar!

    Mas há mais. Dois casos de ampliação de Centros Comerciais (está na moda). Árvores abatidas a rodos. Foi tudo a eito. Árvores que foram plantadas aquando da sua instalação inicial (há uns 15 anos, mais ou menos) e por exigências dos Projectos da altura. Claro, não se faz o mais pequeno esforço (quiçá financeiro) no sentido de preservar as árvores que já estavam a fazer parte do habitat do próprio bicho-homem. Mas a maior parte das pessoas o que querem é acessos directos para a garagem do Shopping, espaços (todos iguais em qualquer parte do país, às vezes nem se sabe muito bem em que cidade é que estamos).

    Amanhã é o DIA DO AMBIENTE. Será que o Povo vai ao menos pensar um poucochinho que seja na necessidade e urgência em o preservar?
    Que cada um de nós tem de fazer a sua Parte?

    António Nunes

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  3. Manuel Eduardo Correia

    Venho por este meio denunciar o abate indiscriminado de árvores de
    grande porte que tem vindo a ser feito e que está a decorrer na rua onde vivo com consequências dramáticas para a qualidade de vida e bem estar do meu agregado familiar. Ontem cortaram dois choupos enormes, hoje mais três e amanhã preparam-se para cortar pelo menos mais três, desta vez mais três choupos de grandes dimensões, sendo estas as mais criticas para mim pois são aquelas que protegem a minha casa do barulho e poluição causada pelos carros que passam numa rua com muito movimento.

    Estes tristes eventos estão a ocorrer na Avenida Infante D. Henrique em Vila nova de Gaia:

    http://goo.gl/maps/y6T0

    Pelo que pude apurar os cortes estão a ser feitos pelos serviços do
    Parque Biológico de Vila Nova de Gaia sob ordens da vereadora do
    ambiente de vila nova de Gaia. Nada foi dito aos munícipes que foram apanhados completamente de surpresa e que não compreendem a razão para um acto tão brutal, estúpido e criminoso.

    Foi-me comunicado que as poucas árvores que ainda resistem em frente de minha casa estão para ser cortadas amanhã de manhã (sexta feira dia 4 de Fevereiro), pelo que gostaria de saber o que é que me recomendam que faça, e se me ajudam a contactar a senhora vereadora para ver se pelo menos suspendem o corte das árvores que ainda resistem. Pretendo mover à câmara de Gaia um processo cível na pessoa da senhora vereadora por causa deste acto de vandalismo ambiental que está a ser promovido por todo o concelho de Vila Nova de Gaia, onde no último mês foi desencadeado um verdadeiro processo inexplicável de extermínio de árvores de grande porte que precisava de ver esclarecido para poder ter paz de espírito.

    Por último gostaria de saber se alguém têm meios de comunicação privilegiados com a comunicação social (RTP, SIC e TVI) para que eles possam documentar em directo este verdadeiro atentado planeado aos direitos dos cidadãos e à qualidade de vida que tem estado a acontecer discretamente, mas obstinadamente em Gaia, e pelos vistos pelo resto do país. Como eu costumo dizer a ignorância move montanhas.

    Para quem me quiser contactar o meu email é mcc@dcc.fc.up.pt

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